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No Demini com os Yanomami – Série Fronteiras Fluidas

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No Demini com os Yanomami: Relato afetivo por Morgana Rissinger 

[Produtora executiva da série Fronteiras Fluidas]

No final de maio deste ano eu tive o enorme prazer de conhecer a aldeia yanomami do Demini, que fica em Roraima, perto da divisa do Brasil com a Venezuela. Estive lá a trabalho, para fazer as gravações da série Fronteiras Fluidas. O Demini é a casa do Davi Kopenawa Yanomami, nosso personagem e uma das maiores lideranças indígenas da contemporaneidade.

A casa e a montanha

A Terra Indígena Yanomami tem, aproximadamente, 192.000 km², situados em ambos os lados da fronteira Brasil-Venezuela, na região do interflúvio Orinoco – Amazonas (afluentes da margem direita do rio Branco e esquerda do rio Negro). A maloca do Demini foi construída nos anos 1970 por Davi e seu sogro, Lourival, um dos mais importantes xamãs yanomami. Está localizada exatamente onde termina o que um dia iria ser a Perimetral Norte, uma enorme estrada que começou a ser construída durante a ditadura militar e que nunca foi finalizada. De toda forma, sua construção trouxe incontáveis problemas aos yanomami, muitos dos quais contatados pela primeira vez em função desta obra, que levou-lhes doenças e outros problemas pertencentes aos napë (homem branco, ou inimigo, na língua yanomami). Outro aspecto importante da localização da maloca Demini é Watoriki, uma enorme montanha de pedra, maravilhosa, aos pés da qual o xapono (casa em yanomami) foi construído. ‘Watoriki’ significa montanha dos ventos em yanomami e é a casa onde moram os xapiri, os espíritos da floresta que descem à terra através dos xamãs para curá-la.

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O cotidiano no Demini: os gostos e cheiros

No Demini vivem cerca de 100 pessoas. São várias famílias. Algumas já construíram pequenas casas ao redor do grande xapono. Pertinho da casa há um igarapé pra tomar banho e pegar água, e nos arredores há roças de mandioca e banana. Há também bastante manga, e sempre que eu olhava pro lado tinha uma criança chupando manga ou atirando uma flecha em direção aos galhos da árvore pra pegar a fruta! Durante o dia, a maloca é bem barulhenta; as crianças choram muito, gritam, são rebeldes. Os pais não as reprimem nem as mimam. Se querem chorar, as deixam chorar. As crianças são super independentes. Como disse, estão sempre comendo manga (ou beiju de tapioca); fazem bullying umas com as outras o tempo todo. Se precisarem se defender, sabem como fazê-lo. Sabem demonstrar insatisfação, são bravas! São apegadas aos pais, como toda criança, mas como os pais têm muitos filhos e muito o que fazer, as crianças ficam muito soltas e por isso são tão independentes.

Todos dormem em redes e cozinham em pequenas fogueiras feitas dentro da maloca, reunidos em pequenos núcleos familiares. Cada família possui pouquíssimas coisas – redes, sandálias havaianas, algumas panelas – e vivem tranquilamente. Comem muito beiju de tapioca, preparado com a mandioca que colhem na roça, ralada e transformada em uma massa que depois é assada. Como tudo é feito na fogueira, o gosto e o cheiro do Demini, pra mim, é bastante característico – tudo é defumado de madeira queimada, uma delícia!

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O Demini na intimidade

No dia da nossa chegada, nos instalamos em uma parte da maloca que estava vazia. As pessoas das famílias vizinhas nos ajudaram a montar nossas redes e nos acolheram com toda a simpatia e gentileza dos yanomami. Nem todo mundo fala português, mas mesmo assim nos comunicamos bem. O Demini é uma maloca bastante visitada, em função de o Davi ser um grande líder, então todos estão acostumados a receber os napë.

Ao anoitecer, tudo começa a silenciar e cada um vai pra sua rede. Na segunda noite que estávamos lá, fizemos uma sessão de cinema (levamos um gerador, pois lá não tem energia elétrica) que ficou super cheia e agradou a todos. Logo depois cada um foi pro seu cantinho. O silêncio se faz aos poucos. Deito na minha rede e começo a ouvir o silêncio, me preparo pra dormir. Em meio aos últimos burburinhos, começo a ouvir a voz de trovão do Davi. A voz dele ecoa na montanha Watoriki e parece que seu volume vai aumentando. Proporcionalmente, o silêncio vai tomando conta do xapono. Kopenawa fala alto, faz um longo discurso em yanomami. Caminha devagar pelo pátio da maloca e sua voz ecoa por todo o espaço. A noite está clara, é lua cheia. Tento adivinhar sobre o que Davi está falando, decifro algumas palavras em yanomami que conheço, misturadas com outras em português. Acho que ele fala sobre a situação política do Brasil, o impeachment de Dilma Roussef, o “presidente interino”. Parece que está fazendo um relatório para os seus sobre tudo aquilo que havia se informado quando estava na cidade. Tudo permeado pelo discurso de luta, de resistência (consigo entreouvir palavras como “liderança”, “coordenação”, “assembleia”). Estava fazendo política. Mais tarde, parecia que o discurso já se tornara mais filosófico, falando sobre a Natureza – Urihi-a – e a cura da terra. Foi muito bonito, um momento incrível! Que privilégio poder ver esse grande líder atuando na intimidade de sua casa!

A grande festa

Outro momento lindo de testemunhar foi uma festa que todos fizeram pra gente, e especialmente para Ailton Krenak, que é consultor da série Fronteiras Fluidas e foi conosco pra Amazônia (sua presença foi essencial para nossa adaptação lá, pois ele é mestre na fluidez entre diferentes culturas). O dia começou de mansinho, e aos poucos começou a movimentação para a festa. Vi as meninas em cima de uma árvore (árvore esta que eu havia procurado por dias, pois sentia seu cheiro mas não conseguir identificá-la no meio da floresta), colhendo flores brancas e cheirosas que usam nos braços e nas orelhas. Circulavam por ali com buquês cheirosos nas mãos. A maloca começou a ficar vazia, todos foram para fora para se enfeitar. Pintaram o corpo e o rosto com urucum e jenipapo. As moças fizeram desenhos lindos no rosto e no corpo e colocaram flores nos braços, as crianças também. Os xamãs eram os mais lindos: tinham plumas de arara e gavião nos braços e penujem branca de gavião na cabeça. Davi tinha também uma faixa de pele de macaco na cabeça, coberta de pluminhas brancas. Eram a representação dos xapiri, estavam lindos! Foi demais, de muita beleza mesmo, esse momento de preparação para a festa. Os yanomami realmente gostam e sabem como se enfeitar. A festa começou. Os xamãs haviam tomado yacoana, uma espécie de rapé feito com a casca da árvore homônima, que é a comida dos xapiri. Todos entraram na maloca, cantando e dançando, e se dirigiram ao pátio central. Os xamãs fizeram sua dança de guerreiros. Logo começaram a olhar diretamente para a câmera e a fazer discursos em yanomami. Estavam passando seu recado para o resto do mundo. Foi aí que percebi que a festa não era só para o Krenak, mas para o filme também. Depois que todos falaram, a festa acabou. Ficamos reunidos na maloca e os xamãs começaram a trabalhar de verdade. Fizeram um trabalho intenso de cura com uma menina que estava doente. Ficaram horas trabalhando com ela. Tomando yacoana, gritando com suas vozes de trovão, lutando contra seres invisíveis. A performance é incrível, o gestual e as falas são bastante característicos. É uma performatividade ancestral que permanece no tempo. É bonito demais!

Bom, isso é só uma parte do que a série Fronteiras Fluidas vai mostrar. As lideranças indígenas brasileiras têm muito o que nos dizer, e nós temos muito o que aprender com elas. Vamos nessa?!

 

Noctua inicia produção de série televisiva documental

Ailton Krenak é uma das dez lideranças da série. Um dos  líderes políticos e intelectuais surgidos durante o grande despertar dos povos indígenas no Brasil.
Ailton Krenak é uma das dez lideranças da série. Um dos maiores líderes políticos e intelectuais surgidos durante o grande despertar dos povos indígenas no Brasil. Lançou recentemente um livro de memórias para a coleção “Encontros”, da Azougue Editorial.

A Noctua, em parceria com a Pólofilme/Imagética, foi selecionada no Programa Brasil de Todas as Telas para a produção da série televisiva “Fronteiras Fluidas”. Trata-se do maior programa de desenvolvimento do setor audiovisual já construído no Brasil, formulado pela ANCINE em parceria com o MinC – Ministério da Cultura. A série terá direção geral de Mariana Fagundes e contará com o importante olhar cinematográfico de Joel Pizzini, cineasta sul matogrossense que tem trabalhos importantes dentro da temática indígena, como o premiado “500 almas”. “Fronteiras Fluidas” também terá a importante consultoria dos antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Spensy Pimentel. O projeto já está em fase de pré-produção e a previsão é que seja concluído até o final de 2016.

Sobre a série

Fronteiras Fluidas é um projeto de série documental televisiva, de treze episódios, sobre os mundos indígenas que coexistem com muitos outros mundos: negros, brancos, mestiços, entre outros, compondo este multimundo chamado Brasil. São inúmeras as fronteiras com as quais esses povos se deparam: políticas, territoriais, sociais, econômicas, étnicas, entre outras. A série acompanha dez lideranças indígenas, de quatro regiões do Brasil, que trafegam na linha tênue desses limites.

Fronteiras são “espaços” naturalmente complexos e, muitas vezes, vulneráveis. São nesses espaços, seja de natureza física ou simbólica, que as tensões da vida contemporânea são ainda mais evidentes. Por outro lado, nesses mesmos “lugares” o homem pode ter uma rica experiência de troca com o ambiente que o cerca, tornando as divisas entre o seu espaço e o espaço do outro mais fluidas; permitindo que as particularidades dos espaços vizinhos intervenham no seu, seja através de um comportamento, de uma crença ou do universo por onde transita.

Acompanharemos lideranças que representam seus povos, seus costumes e lutam para dar visibilidade às questões vitais para a sobrevivência de uma população constantemente ameaçada. A série televisiva seleciona personagens com o intuito de mostrar como a herança dos povos indígenas, pode, atualmente, contribuir para o desenvolvimento do país. Dentre os inúmeros personagens identificados em pesquisa prévia, elegemos dez porta-vozes para serem os protagonistas da série. As temáticas centrais de cada episódio trazem os dilemas do homem contemporâneo, como casamento, família, educação, religião, meio ambiente, entre outros – questões que afetam qualquer ser humano – de forma que o espectador possa identificar-se, independente de classe social, econômica ou cultural.

Por meio do intercâmbio de dez porta-vozes de etnias distintas, “Fronteiras Fluidas” ensina o homem contemporâneo a viver num mundo que foi invadido, saqueado e devastado pelos próprios homens e ressalta a importância dos povos indígenas na construção de um país mais plural e humano.

Assista à websérie Gente Awá

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O que une os Awá-Guajá — grupo indígena do Maranhão de pouco mais de 360 pessoas, com parte de sua população em situação de isolamento voluntário nas matas da Amazônia Oriental — aos Guarani-Kaiowá — o segundo maior grupo indígena do país, com quase 50 mil pessoas vivendo uma situação desesperadora em seu cotidiano, marcado por dezenas de assassinatos e suicídios todo ano, além de confrontos diretos com fazendeiros do sul de Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai?

Os Awá-Guajá e os Guarani-Kaiowá representam realidades extremas vividas em duas regiões do país onde hoje é muito distinta a situação dos povos indígenas, no que tange à terra.

É sobre esse assunto que trata a série Gente Awá, realizada pela Noctua – Ideias e Conteúdo, que está sendo lançada hoje. O projeto é financiado pelo Ministério da Justiça e tem curadoria de Renato Janine Ribeiro, Uirá Garcia e Spensy Pimentel. São cinco episódios que documentam a luta indígena pela terra no Brasil.

A série faz um paralelo entre os dois casos: os Awá-Guajá, do Maranhão, e os Guarani-Kaiowá, do Mato Grosso do Sul e, por meio do diálogo com lideranças indígenas, pensadores e especialistas no assunto, busca mostrar que o desafio pelo território continua marcando as comunidades indígenas do Brasil do século XXI.

Saiba mais sobre o projeto aqui.

Assista o primeiro episódio aqui.

Tecnologias que mudarão o mundo

Internet 3, 4, 5Gs. Smartphones cada vez mais inteligentes. Tablets para todos os gostos. Nuvens carregadas de bits e bytes. Para alguns, dispositivos de uso pessoal. Para outros, são tecnologias capazes de solucionar problemáticas globais .

Saiba aqui quais são essas tecnologias que prometem mudar o mundo – para melhor. São desenvolvimentos que envolvem ciência, engenharia, ecologia e muita criatividade.

O “eu” como marca, uma forte tendência para este ano

Empresas no Brasil e no mundo estão bastante atentas ao associar suas marcas à pessoas, como celebridades e atletas. Ao pensar todos os aspectos de suas vidas – aparência, dia a dia, vida profissional, vida pessoal, essas personalidades querem construir o seu “eu como marca” da forma mais sólida possível.

A partir de um nome e imagem fortes, os caminhos para novos negócios estão abertos. O chamado me brands impacta positivamente, também, no público final de produtos e serviços.

Saiba mais sobre essa nova forma de construir negócios – o personal brandingneste artigo.

É possível mudar nossa cidade

No cotidiano dos nossos centros urbanos superpopulosos, várias questões nos dão a impressão e, por vezes, até mesmo nos afastam de uma participação política mais ativa acerca dos problemas que eclodem nas cidades. Por conta disso, acabamos por nos sentir impotentes e abatidos perante mudanças que carecem ser realizadas.

Para suprir essa e outras carências, temos atrelado a noção de felicidade ao consumo exacerbado de produtos e serviços que influenciam diretamente no aumento do caos e que não satisfazem nossos desejos mais subjetivos. Nossa postura passiva, enquanto cidadãos, vislumbra por soluções que nem governos nem o capitalismo, por si sós, têm condições de proporcionar.

Atenta a esse cenário, a carioca Alessandra Orofino convoca de maneira estimulante, neste vídeo, um novo posicionamento do cidadão urbano que vem a somar aos esforços das demais instituições públicas e privadas. Através da criação de plataforma digital, ela fornece uma rede alternativa para o engajamento social e cívico capazes de mudar, efetivamente, diversas realidades.

A modernidade se alia à tradição

Fotografia: Mariana Fagundes

Empreendedorismo social, tecnologia e educação; uma receita de sucesso que pode ser comprovada pela iniciativa de João Paulo Ribeiro, pesquisador responsável pelo desenvolvimento de aplicativo mobile voltado para comunidades indígenas brasileiras.

O projeto aprovado em prêmio de economia criativa é um exemplo do uso inteligente e democrático de mídias digitais relacionado à uma temática de extrema importância para o preservação de um patrimônio imaterial do nosso país.

Leia a íntegra aqui.